segunda-feira, 19 de agosto de 2013

FILOSOFIA CLÁSSICA

Este texto foi escrito pelo meu amigo e escritor , professor Francisco Alves de Miranda, autor do livro ALGUNS CAMINHOS DA FILOSOFIA NO OCIDENTE,ed. arteletras.

 A filosofia clássica[1]

Elogio do Aprendizado

Aprenda o mais simples!
Para aqueles cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!
Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Frequente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.
Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você quem vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: o que é isso?
Você tem que assumir o comando.
(BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. São Paulo: Ed. 34, 2001, p. 114)

01 - A Sofística

O Sábio e o Pássaro

“Um homem muito malvado queria colocar o seu mestre em apuros e por isso bolou um plano maléfico. Tomaria nas mãos um passarinho e quando o mestre estivesse a ensinar os outros discípulos ele formularia a seguinte pergunta: Mestre, esse pássaro que tenho em minhas mãos está morto ou vivo? Se o mestre dissesse que estava vivo, ele o esmagaria com as mãos e mostraria o corpo do pobre pássaro. Se dissesse que estava morto, ele o deixaria voar livremente. Qualquer resposta do mestre o faria entrar em apuros. Tendo arquitetado tão malvado ardil contra o seu mestre, saiu o mau discípulo a procurá-lo. Encontrando o seu mestre a ensinar, o mau discípulo fez a pergunta fatal. O mestre, parou, pensou, e percebendo a intenção do homem, deu a seguinte resposta: _ O destino desse pássaro meu amigo, está em suas mãos!”[2].

A moral da parábola é simples: o destino da vida está em nossas mãos. Nós somos o fruto de nossas escolhas. Para uma boa escolha, fruto bom; do contrário, escolha errada. Qual é a sua escolha? Talvez seja essa a grande indagação dos sofistas.
A reflexão filosófica foi fruto de um longo processo de maturação, discussão, assimilação e negação de ideias de vários pensadores e culturas: em uma primeira instância, a reflexão foi direcionada à natureza, no entanto, com o amadurecimento das discussões, provavelmente entre os séculos V-IV a.C., o ser humano passou paulatinamente a ser o centro da reflexão. E, esta discussão com os sofistas[3], tornou-se o polo radiador das discussões. Isso significa dizer que os primeiros pensadores estavam voltados para a natureza, ao posso que, com os sofistas, há um redirecionamento: o ser humano passa a ser o centro da reflexão.
A importância do movimento sofista na história do pensamento não pode ser subestimada. Seus fundadores foram os primeiros a colocar os problemas do homem no centro da reflexão filosófica, antecipando assim a iminente revolução socrática. Foram eles que forjaram o conceito de cultura (de Paideia) enquanto formação integral do homem grego. Foram eles que ampliaram os conceitos de retórica e de oratória e do uso correto da razão com maestria. Falar, portanto dos sofistas[4] e da Paideia[5] é falar dos pedagogos, da formação do indivíduo (e do cidadão) grego. Portanto, com a Paideia proposta pelos sofistas, há uma ruptura com o antigo modelo educacional aristocrata (de linhagem divina). A nova sociedade do séc. V a.C. sente a necessidade de outro modelo mais amplo e universal (de formação humana) capaz de satisfazer os ideais do homem da polis. Ora, foi das necessidades mais profundas da vida do Estado que nasceu a ideia da educação, a qual reconheceu no saber a nova e poderosa força espiritual daquele tempo para a formação de homens, e a pôs a serviço dessa tarefa.

O mestre na arte da argumentação
“O homem é a medida de todas as coisas;
daquelas que são, enquanto são;
e daquelas que não são, enquanto não são”.
(PROTÁGORAS)

Os séculos V-IV a.C. de um ponto de vista histórico correspondem ao período do triunfo da política e da democracia ateniense, das grandes pós-vitórias dos gregos sobre o império persa, é o século de Péricles e da atuação das “massas populares”. Em uma perspectiva sofística pode ser definido como sendo o período da arte da retórica, da oratória: os pedagogos por meio de remuneração, ensinavam e auxiliava cidadãos ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. Esse movimento (sofística) tinha um propósito bem delimitado: tornar públicos os ensinamentos com a promessa de formar homens sábios, virtuosos, poderosos e felizes.
Conhecemos pouco sobre os sofistas, só há alguns fragmentos dos principais expoentes (Protágoras e Górgias). Eles quase sempre foram mal interpretados devido às críticas que sobre eles fizeram Sócrates e Platão. Ora são vistos como impostores ou demagogos. Durante muito tempo a palavra sofista fora empregada com o sentido pejorativo. A imagem de certa forma caricatural da sofística tem sido reelaborada no sentido de procurar resgatar a verdadeira importância do seu pensamento. São muitos os motivos que levaram à visão deturpada dos sofistas que a tradição nos oferece[6]. Os principais sofistas são: Protágoras, Górgias, Hípias, Isócrates, Pródico, Crítias, Antifonte e Trasímaco. Dentre os sofistas, destacam-se as figuras de Protágoras de Abdera (480-410 a.C.) e Górgias (480-380 a.C.).
Protágoras é considerado o primeiro e um dos mais importantes sofistas. Ensinou por muito tempo em Atenas, tendo como princípio básico de sua doutrina a ideia de que “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”. O que Protágoras quis dizer ao afirmar que o homem é a medida de todas as coisas? Será que o homem é realmente a medida de todas as coisas? Há relativismo no pensamento de Protágoras ou é simplesmente uma maneira de focalizar o homem como centro de razão de todas as coisas e não mais os deuses? Alguns afirmam que ele foi o pai do relativismo[7] graças a essa famosa tese: conforme essa concepção, todas as coisas são relativas às disposições do homem, isto é, o mundo é o que o homem constrói e destrói. Por isso não haveria verdades absolutas. Toda verdade seria relativa a determinada pessoa, grupo social ou cultura. A filosofia de Protágoras sofreu críticas em seu tempo por dar margem a um grande subjetivismo[8]: tal coisa é verdadeira se para mim parece verdadeira.
Assim, qualquer tese poderia ser encarada como falsa ou verdadeira, dependendo da ótica de cada um. O homem é a medida de todas as coisas. Essa era a sua famosa doutrina, significando que não há verdade exceto aquela percebida pelo homem. O fundamento dessa ideia consiste em que nada no mundo pode confirmar sua natureza por si mesmo[9]. Nesta perspectiva, surgem questões não muito fáceis de serem resolvidas, tais como: se um louco achar que é Jesus Cristo, o Salvador, isso faria dele ser o Salvador? Provavelmente não, mas segundo Protágoras esse sujeito poderia ser Jesus para si mesmo, pois a pessoa e o louco em si estão percebendo duas coisas distintas e não discordando acerca da mesma coisa. Isso porque a natureza de uma coisa é determinada por uma interação entre o objeto e quem o percebe, e percebo de maneira diferente quando estou insano e quando estou totalmente são.
Surge aqui outro questionamento: existe uma verdade não opinável? Além disso, no que consiste o conhecimento humano? A experiência individual é o único critério real da verdade. Não existem leis eternas e verdades objetivas, somente opiniões. Mas a relatividade de todo juízo não deve levar ao derrotismo: o livre choque de opiniões (dialética) seleciona sempre a melhor solução, a mais útil. Por isso, mesmo não existindo qualquer verdade, a tarefa educativa do filósofo permanece essencial. Protágoras afirmava também a necessidade do estudo e da educação, na medida em que, se não existem proposições verdadeiras em absoluto, deve-se saber diferenciar entre as opiniões melhores e piores, mais ou menos úteis ao indivíduo e à sociedade. Desta forma, pode-se dizer que a tarefa do sofista abrange, portanto, também um aspecto construtivo e socialmente fecundo ao encaminhar os cidadãos para os valores e as opiniões mais adequadas a uma determinada situação.
Em síntese, os sofistas contribuíram para a dessacralização do saber acumulado pelos pensadores da physis (os fisiólogos). A sabedoria não é mais um segredo que o mestre revela a alguns discípulos eleitos, não é mais o desvelamento da natureza, é uma techne profana, eficaz e útil, uma mercadoria que se vende, acessível a todos.

02 - A indagação socrática

As três peneiras
“Certa vez, um homem esbaforido chegou até Sócrates e sussurrou-lhe:
_ Na condição de teu amigo, tenho algo muito grave para dizer-te, em particular.
_ Espera! – falou o filósofo prudente – Já passaste o que vais dizer pelas três peneiras?
_ Três peneiras? – perguntou-lhe o visitante espantado.
_ Sim, meu caro amigo, três peneiras. Observemos se tua confidência passou por elas. A primeira peneira é a da verdade. Guardas absoluta certeza quanto àquilo que pretendes comunicar?
_ Bom, – ponderou o interlocutor – assegurar mesmo, não posso... mas ouvi dizer.
_ Exato. Decerto peneiraste o assunto pela segunda peneira, a da bondade. Ainda que seja real o que julgas saber, será pelo menos bom o que me queres contar?
Excitado, o homem replicou:
_ Isso não, muito pelo contrário.
_ Ah! – Tornou o filósofo – Então recorramos à terceira peneira, a da utilidade e diz-me o proveito do que tanto te aflige.
_ Útil? – pensou o homem esbaforido – Útil não é.
_ Bom, – concluiu o filósofo com um sorriso – se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom, nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que de nada valem casos sem edificação para nós”[10].

A narrativa supracitada parece atinar para a postura serena do filósofo de Atenas: uma figura aberta ao diálogo, ponderada, comprometida com a coerência do discurso, além disso, engajada com a atividade política da sua cidade. Sócrates[11] é o que podemos dizer o homem do seu tempo. No tempo de Sócrates, Atenas vivia o auge de um regime de governo no qual os homens livres decidiam os interesses comuns a todos os cidadãos. Atenas[12], nesse período havia se tornado uma grande potência, estendendo sua força por quase toda a Grécia. A vida cultural era intensa, com grandes escultores e artistas, dramaturgos, historiadores, médicos e homens públicos.
Uma das problemáticas reinantes no tempo de Sócrates eram as ideias difundidas pelos sofistas. Ideias essas que favoreceram o surgimento de concepções relativas sobre as coisas. Segundo tais concepções, não havia uma verdade única, absoluta, objetiva válida para todas as pessoas. Tudo seria relativo ao homem, ao momento, a um conjunto de fatores e circunstâncias. Sócrates, vivendo na democrática e pragmática Atenas do século V, suscita a discussão, estabelece como teor da sua reflexão a vida da polis, logo, costumes vigentes.
Ao “ensinar” ele não assumia a posição de um professor tradicional, ao contrário, dialogava e discutia muito com os que lhe abordavam. Ao assumir uma postura de oposição aos sofistas, ele se identificava como aquele que sabia que não sabia. Talvez por ignorância mesmo ou por humildade. Isso significa dizer que em se tratando da possibilidade do conhecimento ou da verdade, é certo de que Sócrates trouxera para o cenário reflexivo uma certeza, que era a de que nada sabia. Quem se põe em tal atitude, no mínimo, está disposto a lançar-se na busca da verdade (certeza) mesmo que seja, a princípio, uma verdade vazia que precisava ser preenchida. Sócrates parece que se dispõe a essa missão. Missão que pode ser compreendida dentro de um contexto de diálogo, de confronto de ideias livres e racionais.

O método socrático

“Ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber.
Parece que sou um pouco mais sábio que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei”[13].

Sócrates, em um primeiro momento, ia interrogando os seus interlocutores sobre aquilo que pensavam saber acerca do Bem e do Mal, do Justo e do Injusto, do Belo e do Feio. No decorrer do diálogo, atacava de modo implacável os seus interlocutores e levava-os a reconhecerem a sua própria ignorância. Uma vez destruída as certezas, sua tarefa consistia em reconstruir paulatinamente o conhecimento via diálogo. Através do diálogo ele estabelecia a possibilidade universal da verdade, da justiça, do bem e do belo, na proporção em que ele fazia a pergunta pela natureza de tal realidade. Sócrates acreditava que a verdade como tal era algo imanente (ou seja, interior ao ser) ao mundo e aos homens, que ele era capaz de extrair mediante indagação ponderada. Assim, em vez de se autopromover (à maneira dos sofistas) com um grande repertório de sabedoria, ele se comparava a uma parteira por fazer parir a verdade.
Sócrates achava que sua tarefa era ajudar as pessoas a gestarem opiniões próprias, mais acertadas, pois o verdadeiro conhecimento tem de vir de dentro e não pode ser obtido “espremendo-se” os outros. Na prática, Sócrates tinha o costume de pedir a pessoas de notório saber que dessem suas definições de conceitos como justiça, coragem ou bem. Depois, Sócrates passava a dar mais conteúdo às suas perguntas, até descobrir uma crença sustentada por seu opositor que, ao mesmo tempo em que era verdadeira, estava em contradição com a posição inicial dele. Mais perguntas se seguiam, até que se chegasse a um acordo quanto a uma definição aceitável. Em geral, a reação do opositor era maravilhar-se perante a sabedoria de Sócrates. A essa postura socrática dá-se o nome de método socrático[14].
Neste contexto é oportuna a pergunta pela tarefa da filosofia: qual é o papel da filosofia? A verdade pode ser ensinada? A filosofia nesse sentido, não ensina a verdade, mas ajuda o indivíduo a descobri-la sozinho. Não oferece soluções, mas um método para raciocinar a partir de si mesmo. A verdade é uma conquista pessoal e a educação é sempre autoeducação, um processo de amadurecimento interior que pode ser estimulado, mas não provocado, a partir do exterior. Além disso, Sócrates acreditava que o conhecimento do que é certo leva ao agir correto. E “só quem faz o que é certo” – assim dizia Sócrates “– pode se transformar em uma pessoa de verdade”. Na prática, o filósofo estava preocupado em encontrar definições claras e válidas universalmente para o que é certo e o que é errado. Contrariando os sofistas, ele acreditava que a capacidade de distinguir entre o certo e errado estava na razão, e não na sociedade.
Vale salientar que a sua busca incessante pela verdade lhe custou a vida, pois o desejo dos atenienses de se aperfeiçoar acabou se esgotando, junto com sua paciência. Consistindo, de fato, na humilhação pública dos grandes e dos bons, a investigação de Sócrates foi muito corretamente identificada como uma ameaça às bases da sociedade grega. Por fim, para alguns atenienses Sócrates “denegria” o princípio essencial da democracia ao afirmar que as decisões não deviam ser tomadas pelo voto, mas por reis-filósofos, com base em sua sabedoria “superior”.

Provocação Filosófica – Sócrates e a decorrência de sua ação política

“No Brasil não existe filantropia, o que existe é pilantropia” (Herbert de Sousa – Betinho).

A postura filosófica de Sócrates destoava da postura dos sofistas. Esses eram mestres na arte da argumentação, porém, seus ensinamentos eram descomprometidos com a verdade (ou pelo menos com o modelo de verdade vigente). Os ensinamentos eram direcionados conforme interesses pessoais. Ao contrário, Sócrates defendia a possibilidade de um conhecimento autêntico e universal, válido para todas as pessoas. Além disso, o seu engajamento, o grau de comprometimento para com a verdade lhe custou à vida.
Se fosse possível estabelecer um diálogo entre os sofistas, Sócrates e os atuais políticos brasileiros não seria exagero afirmar que a postura dos nossos políticos beira a demagogia, a falação, a hipocrisia e muito se aproxima dos sofistas. Qualquer brasileiro que tenha acesso aos meios de comunicação de massa já ouviu (e viu) falar em desvios de verbas públicas nas áreas da saúde, da educação, da habitação, porém, não consta na história da política brasileira um político mártir que tenha morrido em nome da ética na política. Entretanto, a população como um todo parece “aceitar” ou achar “natural” a postura demagógica dos “nossos” representantes. E, isso é contraditório, por qual razão? Muitas são as Comissões Parlamentares de inquéritos (CPIs), muita divulgação por parte da mídia e poucos são os que realmente são sentenciados, julgados e aprisionados. Simplesmente roubam e saem impunemente. Por que não há revolta popular ou mesmo rejeição a esses políticos em época de eleições? Há um texto proposto por Platão que torna visível a postura de um cidadão autêntico.
“À parte a questão da honra, senhores, não me parece justo pedir e obter dos juízes minha absolvição, em vez de informá-los e convencê-los. [...] Pode alguém perguntar: Mas não serás capaz, ó Sócrates, de nos deixar e viver calado e quieto? De nada eu convenceria alguns dentre vós mais dificilmente do que disso. Se vos disser que assim desobedeceria ao deus e, por isso, impossível é a vida quieta, não me dareis fé, pensando que é ironia; doutro lado, se vos disser que para o homem nenhum bem supera o discorrer cada dia sobre a virtude e outros temas de que me ouvistes praticar quando examinava a mim mesmo e a outros, e que vida sem exame não é digna de um ser humano, acreditareis ainda menos em minhas palavras. Digo a pura verdade, senhores, mas convencer-vos dela não me é fácil. Acresce que não estou habituado a julgar-me merecedor de mal nenhum. [...] Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaro, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma multidão de coisas que declaro indignas de mim, tais como costumais ouvir dos outros. [...] Quer no tribunal, quer na guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte”[15].

Sócrates no momento de sua defesa poderia ter faltado com a verdade, ter silenciado, subornado alguém ou até mesmo fugido para outra cidade, no entanto, permaneceu convicto de seus ideais e por isso foi condenado a morte. Resta saber, portanto, vale à pena falar a verdade mesmo que lhe custe à vida? O que pode ocorrer se por ventura uma população de uma determinada cidade ou nação resolver silenciar frente à corrupção de um servidor público?

03 - Há luz para além da caverna

“Os males não cessarão para os homens antes que a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder” (PLATÃO).

O filósofo Platão (427 - 347 a.C.) é uma figura intrigante: por um lado, busca resgatar algumas ideias elaboradas pelos pensadores originários gregos e, por outro lado, busca dar uma nova configuração à filosofia a partir das ideias do seu mestre Sócrates e vai além, na proporção em que pensa o Estado como um todo, inclusive, com a sua governabilidade. Nascido em Atenas, Platão foi discípulo de Sócrates, a quem considerava “o mais sábio e o mais justo dos homens”. Além disso, funda a Academia e dá início à sua atividade filosófica.
Uma questão que pode ser posta inicialmente diz respeito à filosofia de Platão, assim sendo, como compreendê-la? Para tal compreensão, necessário se faz ter uma visão sobre o real e o ilusório (sentidos e razão) e sobre o próprio homem. Os filósofos em sua maioria têm uma maneira distinta de verem as coisas, mas no caso de Platão, essa visão da realidade parece inverter os dados a tal ponto que o que parece real (aos olhos das pessoas comuns) torna-se ilusório, o mundo teoricamente concreto para o comum dos mortais, é para ele aparência, engodo, uma peça que os sentidos pregam.
Platão é considerado um dos fundadores da filosofia ocidental e, quando se fala em filosofia, subentende-se que ela seja exatamente a superação das explicações míticas, então, qual a razão do filósofo fazer uso do mito e de alegorias para explicar a sua teoria? Nesse caso, o mito teria a função de persuadir os interlocutores assim como tivera para os sofistas ou ainda como algo puramente fabuloso? É plausível estabelecer uma ligação da alegoria, do mito com o conhecimento sensível? No período de Platão havia uma questão crucial a ser resolvida: o problema do ser e do não ser. Duas linhas investigativas oriundas dos pensadores originários gregos[16]. Como Platão conseguiu resolver essa aporia, ou seja, como ele tornou compatível o ente (que é uno, imóvel e eterno) com as coisas (que são múltiplas, variáveis, perecíveis)? A resposta a essas questões passa pela compreensão das Ideias[17].
Para fundamentar sua teoria, a origem do homem e do conhecimento das ideias, Platão, dentre outros recursos, apropria-se de algumas narrativas míticas, dentre elas, o Mito da Parelha Alada[18] e o Mito da Caverna (A República livro VII) para explicar a imortalidade da alma, a origem do homem, o processo de reminiscência (anámnesis) das ideias e do conhecimento. Para o filósofo, o conhecimento para ser autêntico deve ultrapassar a esfera das impressões sensoriais, o plano da opinião e penetrar na esfera racional da sabedoria que é o mesmo que o Mundo das Ideias[19]. Para atingir esse mundo, o ser humano não pode ter apenas “amor às aparências” (filodoxia), precisa possuir um “amor ao saber” (filosofia). O método proposto pelo filósofo para atingir o conhecimento autêntico (epistemé) é a dialética[20].

O papel do filósofo

“_ Sócrates, não poderias tu viver longe da pátria, calado e em paz?
_ Eis justamente o que é mais difícil fazer aceitar a alguns dentre vós: se digo que seria desobedecer ao deus e que, por essa razão, eu não poderia ficar tranquilo, não me acreditaríeis, supondo que tal afirmação é, de minha parte, uma fingida candura. Se, porém, digo que o maior bem para um homem é justamente este, discorrer todos os dias sobre a virtude e os outros argumentos sobre os quais me ouvistes raciocinar, examinando a mim mesmo e aos outros, e, que uma vida sem esse exame não é digna de um ser humano, ainda menos acreditaríeis no que digo”[21].

Platão em – Apologia de Sócrates - ilustra perfeitamente o papel do filósofo, no caso, de Sócrates: o filósofo é alguém profundamente comprometido com a verdade, ou seja, com as virtudes, com o conhecimento, com a sabedoria. Para ser mais preciso, o grau de comprometimento é tamanho que o filósofo é condenado à morte por não abrir mãos dos seus preceitos morais. Para Platão, filosofar não é simplesmente um exercício mental de persuasão de seus interlocutores, é compromisso, busca constante pela verdade válida universalmente (logo para todas as pessoas que participam da vida na cidade). Em outro diálogo de Platão – A República – nos livros VI e VII, há a abordagem do papel do filósofo[22]: o filósofo é aquele que tem diante de si um modelo ao qual compara os objetos da opinião, e só ele é capaz de legislar sobre o belo, o justo e o bom. Ama, por isso, a verdade, e possui, desse modo todas as virtudes. Mas não existe filósofo completo e perfeito. O que pode formar um filósofo é uma educação cuidadosamente apropriada à sua finalidade. Para Platão, a educação não consiste em trazer o conhecimento de fora para dentro, mas em despertar nos indivíduos o que eles já sabem.
Resta saber como se dá a efetivação do ser humano? Segundo Platão, o espaço de efetivação do ser humano é o Estado. É ele quem possibilita aos indivíduos a sua realização. É através dele que o ser humano é capaz da ascensão. Assim sendo, ética e política estão intimamente relacionadas e direcionadas para o bem. O Estado idealizado por Platão é semelhante ao corpo humano. Assim como o corpo possui “cabeça” e “baixo-ventre”, também o estado justo possui governantes, sentinelas e trabalhadores. Desse modo, um Estado justo (que se diga justiça platônica) se caracteriza pelo fato de cada um conhecer o seu lugar no todo. Decisivo para a criação de um bom Estado é que ele seja governado pela razão, ou seja, pelos filósofos - “os males não cessarão para os homens antes que a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder”.
Este modelo estatal pensado pelo filósofo assemelha-se às castas existentes na Índia onde cada um tem sua função especial para o bem de todos, do Estado. E é, justamente, dessa concepção de Estado que posteriormente vai apropriar-se Santo Agostinho – Cidade de Deus, contrapondo-se à cidade dos homens. Duas realidades, dois governos e uma perfeição a vista onde tudo se valia para alcançá-la – Reino de Deus.

Provocação Filosófica - da alegoria da caverna e a sociedade do espetáculo.

“O mundo [...] que o espetáculo faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. E o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois o seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens entre si e em relação a tudo que produzem”.  (DEBORD, 2008, Tese 37)

Filosofar é pisar no solo do estranhamento, ir além do falar comum. É rememorar as ideias subjacentes propostas pelos pensadores no desenrolar da história. É marcar presença na vida cotidiana. É fecundar o futuro com novas ideias que apontem transformação da sociedade enquanto tal. É papel da filosofia e do filósofo não somente transitar pela história, mas descobrir-se enquanto participe dela. O filósofo não pode abdicar do momento: a filosofia só faz sentido, em última instância, se for uma palavra fecunda e presente.
Após vinte e cinco séculos de reflexão filosófica, as ideias propostas por Platão parecem dignas de apreço e de referência para o discurso filosófico. São vários os pensadores que no desenrolar da filosofia se apropriaram de suas ideias, ora para justificar alguma posição filosófica ou religiosa, ora para criticar a sua postura. Neste momento, busca-se contemplar desde filósofo apenas a sua teoria das ideias (especificamente, A Alegoria da Caverna), uma bela imagem e oportuna para uma leitura do mundo atual. E, a partir dessa imagem, dialogar com Debord (1931-1994) em sua obra A Sociedade do Espetáculo. E, ainda, nesse ínterim contemplar a nossa sociedade, o efeito magnético da mídia televisiva brasileira.
A tese básica da Alegoria da Caverna (livro VII da República de Platão) já foi comentada anteriormente, logo, parece oportuno ir direto a teoria proposta por Debord em A Sociedade do Espetáculo[23]. Essa obra é uma teoria crítica (que foi publicado pela primeira vez em novembro de 1967, em Paris) que em seu esboço deixa entrever a desilusão da existência, a negação da vida tornada visível, a perda da qualidade de vida ligada à forma-mercadoria, a proletarização do mundo, ao modelo econômico capitalista, a sua forma de estruturação da sociedade.
Debord vai dizer que o espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação. “Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada”. Em outras palavras, o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.
O espetáculo é simultaneamente o resultado e o projeto do modo de produção existente. Ele não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário - o consumo. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação total das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo é também a presença permanente desta justificação, enquanto ocupação principal do tempo vivido fora da produção moderna.
A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda a parte. Platão nos adverte para o engodo que é o mundo dos sentidos. Hoje vivemos a cultura do espetáculo escancarada a todos os sentidos. O mito da caverna conta a história de pessoas que viviam no interior de uma caverna, desde a infância e de onde nunca saíram. As pessoas, acorrentadas, só conheciam o mundo externo por meio de sombras que eram projetadas no interior da caverna, ou seja, a visão do mundo externo era uma visão totalmente distorcida e limitada, pois se resumia as sombras diversas.
Neste mesmo horizonte reflexivo, há outro pensador (Feuerbach) que diz algo semelhante: “o nosso tempo, sem dúvida, prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser. O que é sagrado para ele, não passa de ilusão, pois a verdade está no profano”. Ou seja, à medida que decresce a verdade a ilusão aumenta, e o sagrado cresce a seus olhos de forma que o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado. O filósofo alemão parece antever e traduzir a atmosfera da sociedade moderna (e pós-moderna): sociedade do espetáculo, do consumo, da imagem, logo, da inversão. O nosso tempo prefere a representação à realidade. É bem verdade que Feuerbach em - A Essência do Cristianismo - estava criticando o cristianismo em sua essência.
Essa postura não difere muito da ideia exposta por Guy Debord. Para ele toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação. Além disso, as imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.
Se fosse possível fazer um quadro comparativo da Alegoria da Caverna e da Sociedade do espetáculo com a Mídia televisiva brasileira, poderia dizer-se que a mídia televisiva brasileira oferece aos telespectadores um monólogo colorido de ideias, modos, maneiras comportamentais, sem, contudo, oferecer aos telespectadores sequer o direito de dialogar (com a mesma). Segundo Chauí, a indústria cultural vende Cultura. “Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez[24]. A “mídia” é o senso comum cristalizado que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova.
Nesta mesma perspectiva e em conformidade com Novaes, na sociedade capitalista atual, a produção alienada vem juntar-se ao consumo alienado. O consumidor é consumidor de ilusões. “Consumidores de ilusões são todos os que, hipnotizados pela cultura de massa, consomem imagens irrefletidamente e da vida autêntica volvem à inautêntica. Quanto mais eles consomem as ‘imagens dominantes’, menos eles compreendem suas existências, seus desejos[25]
O que realmente importa a indústria cultural? O que importa a indústria cultural capitalista hodierna não é a pessoa em última instância e, sim, um consumidor em potência: importa que ele consuma, não importa o quê. O quê é detalhe assim como a pessoa. O mundo que o espetáculo faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. Como diz Debord, “o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois o seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens entre si e em relação a tudo que produzem” (DEBORD - Tese 37). Daí pode-se questionar: será que a televisão brasileira lança luzes e tira as pessoas do mundo das ilusões ou simplesmente amplia as sombras da ignorância? E, ainda: será que a pessoa de visão, que tem uma percepção diferente do mundo, que não tem medo, pode fazer a diferença ao compartilhar o mundo da mídia televisiva com os seus concidadãos?



[1] Reflexão elaborada por Francisco Alves de Miranda
[3] “A palavra Sofista, etimologicamente, vem de sophos, que significa sábio. A sofística é a corrente filosófica preconizada pelos sofistas, mestres de retórica e cultura geral que exerceram forte influência sobre o clima intelectual grego entre os V e IV a.C. Ela não é uma escola filosófica, mas uma orientação genérica que os sofistas acataram devido às exigências de sua profissão. O interesse filosófico concentra-se no homem e em seus problemas (a postura socrática também estava voltada para o ser humano e seus problemas). O conhecimento reduz-se à opinião e o bem, à utilidade. Consequentemente, reconhece-se da necessidade da verdade e dos valores morais, que mudariam segundo o lugar e o tempo”. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
[4] “O século V a.C. é o ponto de partida histórico necessário do grande movimento educativo. É nesse período que vai ocorrer o ingresso da massa na atividade política. Ora, com a maior participação popular na política, há uma maior democracia. É o momento das grandes discussões no campo da política, da liberdade e da autoridade [...] A sofística é um modelo de ensino voltado para a vida prática (para a cidade, suas leis e sua política), focalizado o seu ensinamento na arte de bem falar. Não era um ensinamento gratuito, no entanto, quem pudesse pagar poderia ter acesso. Logo, não era exclusividade da nobreza. Em certo sentido, esse ensinamento poderia favorecer aos alunos (mediante o desempenho) o êxito na vida pública, ou seja, na política. Ora, se antes o ideal de formação era, em última instância, a virtude, agora, virtuoso é o homem (cidadão) orador, o de boa eloquência, de boa retórica. Doravante, a educação se justificará por meio da proeminência espiritual e na força moral e não mais pela prerrogativa de sangue divino. Brota dessa forma a ideia de espírito grego (ideal de cultura). É importante deixar claro de que desde o começo, a finalidade da sofística não era a educação do povo, mas a dos chefes – educação dos nobres. A sofística é o movimento por excelência da palavra, ou seja, da arte da oratória (do bom uso da palavra nas assembleias públicas). No séc. V a.C. em diante a arte da oratória é de fundamental importância para os representantes políticos. É bem verdade que os sofistas, por dinheiro, ensinavam a arte argumentativa.  Por fim, a sofística é uma resposta bem presente dada pelos pedagogos aos problemas surgidos em consequência da transformação do estado econômico e social”. JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 335-385.
[5] A palavra Paideia (como foi visto anteriormente) significava, de início, “criação dos meninos”. Todavia, com o passar do tempo essa expressão foi ganhando novo significado. Por volta dos séculos V e IV a.C., o conceito alargou-se, significando cultura, educação, todo o apanhado espiritual do cidadão grego. A Paideia tem como tarefa construir o homem como homem e como cidadão. É nesse sentido que se deve entender o sentido de educação. Educar é tornar o ser humano melhor, torná-lo virtuoso enquanto indivíduo e enquanto cidadão fiel ao Estado.
[6] “Um deles é a enorme diversidade teórica entre os pensadores reunidos sob a designação de sofista. Talvez o que possa identificá-los é o fato de serem considerados sábios e pedagogos. Vindos de todas as partes do mundo grego, desenvolveram um ensino itinerante pelos locais em que passavam, mas não se fixaram em lugar algum. Deve-se a isso o gosto pela crítica, o exercício do pensar, resultante da circulação de ideias diferentes”. ARANHA, Maria L. de Arruda e MARTINS, Maria H. Pires. Filosofando. São Paulo: Moderna, 1994, p. 92-125.

[7] Entenda-se por Relativismo a teoria filosófica fundada na relatividade do conhecimento, recusando toda e qualquer verdade ou valor tidos como absolutos. A opinião e o ponto de vista são importantes meios válidos de conhecimento. Por outro lado, a moral, a religião ou a política, por exemplo, são verdades relativas ao indivíduo, não verdades objetivas ou transcendentes. As coisas são como são e cada indivíduo pode interpretá-las de forma a aproximar-se da realidade. O Relativismo pode ser entendido assim como a postura ou teoria de refutar a existência de verdades e de defesa da opinião.
[8] Subjetivismo (de subjetivo + - ismo) é a tendência para afirmar a prioridade do subjetivo sobre o objetivo; subjetivismo filosófico é a doutrina segundo a qual, quer relativamente (para sujeito), quer absolutamente (em si), só há realidade subjetiva; subjetivismo gnosiológico doutrina segundo a qual o sujeito apenas conhece as coisas tais como são para si, ou que apenas conhece as suas próprias representações; subjetivismo ontológico doutrina segundo a qual só existe o sujeito pensante e as suas representações (idealismo absoluto), ou mesmo representações sem sujeito substancial (fenomenismo).
[9] Exemplificando: se o vento parece quente para mim e frio para você, ele é ao mesmo tempo quente-para-mim e frio-para-você. Isso não significa que o vento seja ao mesmo tempo quente e frio, apenas que não possui uma temperatura em si, só em sua relação com aqueles que o sentem. O modo como algo é percebido diz respeito a esse objeto e à pessoa que o percebe, a mais ninguém. O fato de um outro sujeito julgar o vento frio não faz com que este deixe de parecer quente para mim. Como as coisas só adquirem sua natureza específica no modo como são percebidas por alguém, nunca se pode dizer que estou errado no modo como percebo algo. Logo, não posso ser desmentido pela natureza do objeto, já que, sem minha percepção, ele não tem natureza alguma, tampouco posso ser desmentido pelo testemunho de outros, já que as percepções deles não têm relação alguma com a minha.


[10] WONSOVICZ, Silvio. Cantar é filosofar. Florianópolis: Sophos, 2005, p. 16.
[11] Quem foi Sócrates? Uma figura um tanto enigmática. Sua vida é conhecida sobretudo através de Platão, seu discípulo e também um dos grandes filósofos. Um ponto importante da atuação de Sócrates como filósofo estava no fato de que ele não queria propriamente ensinar as pessoas. Para tanto, em suas conversas, ele dava a impressão de que ele próprio queria aprender com seus interlocutores.
[12] Mas Atenas tinha uma forte rival, Esparta, cidade militarizada. Essa rivalidade se acentua no período das famosas guerras do Peloponeso (431-404 a.C.). Atenas sai derrotada e, consequentemente, abalado o seu regime político democrático. Nesse ínterim, Atenas vive um período de turbulência, de intrigas, de conspirações e corrupção, que pode ser caracterizada por crise dos valores morais. Após essa turbulência, a democracia em Atenas é restabelecida, no entanto, não mais será a mesma. Sócrates vive exatamente neste período e se depara com toda essa problemática.
[13] SÓCRATES apud COTRIM. COTRIM, Gilberto. Os Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2000, p 93.

[14] Síntese do seu método que consiste na Ironia e na Maiêutica:
A)      Ironia (do grego eironéia, perguntar), na arte de perguntar, de interpelar os seus interlocutores e, a partir desse diálogo, provocava as pessoas a professarem a sua ignorância.
B)      Após isso, procurava organizar o saber, restituir o conhecimento, levava-os a parirem as suas próprias ideias, daí a maiêutica (a arte de trazer à luz as ideias). Só o conhecimento que vem de dentro é capaz de rever o verdadeiro discernimento. Sendo assim, todas as pessoas podem entender as verdades filosóficas, bastando para isto usarem a sua razão.

[15] PLATÃO. Defesa de Sócrates. São Paulo: Abril Cultural, 1972, p. 26-31. (Col. Os Pensadores).

[16] Como foi visto anteriormente, havia duas propostas: uma proposta pelos mobilistas (em especial, por Heráclito – o ser como devir) e a outra proposta pelos imobilistas (em especial, Parmênides – o ser eterno).
[17] As ideias são formas, modelos perfeitos ou paradigmas, eternos e imutáveis, construindo um mundo transcendente, do qual os objetos concretos do mundo de nossa experiência sensível são cópias ou imagens imperfeitas, derivadas das ideias; a ideia é a própria essência do real, considerada como existindo autonomamente.
[18] Segundo essa narrativa, “A alma, em sua situação originária, pode ser comparada a um carro puxado por dois cavalos alados, um dócil e de boa raça, o outro indócil (os instintos sexuais e as paixões), dirigido por um cocheiro (a razão) que se esforça para conduzi-lo bem. Esse carro, num lugar supraceleste, circula pelo mundo das ideias, que a alma assim contempla, mas não sem custo. As dificuldades para guiar a parelha de cavalos fazem com que a alma caia: os cavalos perdem as assas, e a alma fica encarnada num corpo. Se a alma viu as ideias, por pouco que seja, esse corpo será humano e não animal; conforma as tenham contemplado mais ou menos, as almas estão numa hierarquia de nove graus, que vai do filósofo ao tirano. A origem do homem como tal é, portanto, a queda de uma alma de procedência celeste e que contemplou as ideias”. MARÍAS, Julián. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 52-53.  
[19] Síntese da Teoria das Ideias proposta por Platão:
A)      O Mundo das ideias encontra-se em uma realidade supraceleste. A compreensão do Mundo das Ideias passa pela compreensão do Mundo Sensível e do Mundo Inteligível.
·         O mundo Sensível é acessível aos sentidos. Trata-se de falar do mundo regido pela opinião (doxa);
·         O Mundo das Ideias está acima do mundo sensível e é representado pelos modelos perfeitos ou paradigmas, eternos e imutáveis. Ele é regido pela razão (epistemé);
·         Exemplificando: mesmo se percebêssemos inúmeros coelhos dos mais variados tipos, a ideia de coelho deve ser una, imutável, correspondente à verdadeira realidade.
·         Portanto, acima do ilusório mundo sensível, há o mundo das essências imutáveis que o ser humano atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos;
B)     Há uma dialética (ascendente) que fará a alma elevar-se das coisas múltiplas e mutáveis às ideias unas e imutáveis. As ideias gerais são hierarquizadas e no topo delas está a ideia do Bem. E o bem supremo é também a suprema beleza – “E que existe o belo em si, e o bom em si, e, do mesmo modo, relativamente a todas as coisas que então postulamos como múltiplas, e, inversamente, postulamos que a cada uma corresponde uma ideia, que é única, e chamamos-lhe a sua essência”. (PLATÃO - A República 507 b-c).
[20] A dialética consiste na contraposição de uma opinião com a crítica que dela se pode fazer, ou seja, na afirmação de uma tese qualquer seguida de uma discussão e negação desta tese (antítese), com o objetivo de purificá-la dos erros e dos equívocos. A dialética platônica é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias. A dialética consiste na passagem do mundo das sensações para o mundo ideal. A dialética é um caminho de mão dupla: saída da caverna (ascendente) e o retorno a mesma (descendente). O primeiro permite ver as coisas como elas são, permite a tomada de consciência. Ao tomar ciência da realidade, o ex-prisioneiro retorna ao interior da caverna a fim de libertar os seus companheiros. Isso deixa entrever o compromisso ético por parte desse homem, ou seja, do filósofo. A dialética dá-se por intermédio do diálogo do sujeito (subjetividade) com os outros (intersubjetividade) na proporção em que toma como princípio o Eros (amor) enquanto referência para a ação humana (e o seu elevo espiritual).
[21] PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Martin Claret, 2008.
[22] O filósofo é aquele que ultrapassa o plano da opinião (do amor as aparências) e penetra na esfera racional da sabedoria. Além disso, está voltado para o todo e não para um aspecto da realidade, no caso, a aparência. É aquele que possui um espírito superior capaz de contemplar a totalidade de todas as coisas. (Cf. República VI 511 b-c; Fedro 265 c-d; Leis VII, 344 b). Na Alegoria da Caverna, Platão compara o acorrentado ao homem comum que permanece dominado pelos sentidos, pelas paixões e que só atinge um conhecimento imperfeito da realidade (doxa). O homem que se liberta dos grilhões é capaz de atingir o verdadeiro conhecimento (a episteme/ ciência).  Ora, o liberto não se contenta simplesmente com a sua liberdade, ele tem um compromisso ético para com os demais: após acostumar-se com a luz do sol (no caso, a verdade/ o conhecimento) ele retorna ao interior da caverna e procura libertar os demais prisioneiros. Nesse sentido, ser filósofo é está comprometido com a sua realidade.

[23] A reflexão que faz referência a Guy Debord tomou por base a obra: DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contratempo, 2008.

[24] CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2001.
[25] Há um bom exemplo ilustrativo proposto por Novaes para se compreender a inversão da autenticidade da existência da pessoa do telespectador. Novaes relata o seguinte: “Não assisto ao BBB, mas ao entrar no IG para ler meus e-mails, corri os olhos sobre as notícias do Último Segundo e vi uma chamada para uma entrevista de Pedro Bial concedida ao jornal. Lendo tal entrevista deparei-me com a seguinte fala do apresentador do programa BBB: ‘Ralf e Milena fazem sexo com regularidade. Quem tem pay per view acompanha. A câmera não fica muito tempo neles, não por pudor, mas porque é chato’”. A partir dessa experiência, Novaes vai nos dizer que é da ordem do grotesco pessoas copularem diante de câmeras cônscias da existência dessas e de que, o que supostamente seria um momento de intimidade e privacidade de ambas, está sendo filmado. Seria o caso de uma perversão exibicionista, gerada e alimentada pela perversão do nosso triste sistema capitalista que não tem pudor e não se detém, quando recordes de faturamento estão sendo obtidos. Ver comentário completo In: NOVAIS, Augusta Cristina. BIG BROTHER BRASIL e a sociedade do espetáculo. Revista: Filosofia Ciência & Vida nº 34 – ano 2009.



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